O percurso de um comediante que procura levar o stand-up moçambicano a novos palcos
“Não existe Babo Maduro fora dos palcos.” A afirmação resume a forma como o humorista moçambicano encara a sua profissão. Longe do palco, diz ser uma pessoa reservada, sem a mesma energia e irreverência que o público conhece durante os espectáculos. É nessa separação entre a vida pessoal e a personagem artística que começa a história de um dos nomes em ascensão do stand-up comedy nacional.
Agenciado pela Khuzula, Eduardo Ernesto Bié, de nome artístico Babo Maduro construiu uma carreira que se distingue pela observação da sociedade e pela transformação de acontecimentos do quotidiano em material humorístico. Segundo o artista, mais de 80 por cento do conteúdo que apresenta em palco nasce de situações reais, vividas por si ou observadas na comunidade.
Embora hoje seja reconhecido pelo público, Babo afirma que nunca decidiu tornar-se humorista. “Eu sou escolhido pelo humor”, resume, atribuindo o primeiro reconhecimento do seu talento a um jovem identificado como Elon, não o Musk, que acreditou no seu potencial antes mesmo da sua projecção pública.
DA TELEVISÃO AO PALCO
A primeira grande oportunidade surgiu através de um programa de humor transmitido pela TV Sucesso, para o qual foi convidado pelo humorista Celso Fernando, na época da pandemia da covid19. A participação abriu-lhe as portas para integrar o colectivo The Comedy Club, liderado por Maira Santos, um projecto que reuniu alguns dos principais talentos emergentes do humor moçambicano.
Foi nesse período que consolidou a sua formação artística, aprendendo não apenas técnicas de escrita e interpretação, mas também uma lição que considera determinante para a sua carreira. “Aprendi que os grupos não são para sempre e, acima de tudo, aprendi que posso viver da comédia.”
A saída de Maira Santos para o Brasil marcou uma nova etapa. Babo viu-se obrigado a redefinir o seu percurso profissional e apostar numa carreira independente. A partir desse momento passou a organizar espectáculos próprios e a actuar regularmente em espaços culturais como a XHUB, o Centro Cultural Moçambicano-Alemão, a Fundação Fernando Leite Couto, o espaço Cultural 16 Netos, entre outros.
Segundo explica, mesmo durante a experiência no colectivo, os integrantes eram incentivados a desenvolver espectáculos individuais, estratégia que usou para a transição para a carreira a solo.
TESTAR PIADAS PARA CONSTRUIR ESPECTÁCULOS
Entre os formatos que mais caracterizam o seu trabalho está o espectáculo “Teste de Piadas”, iniciativa que pretende manter como marca da sua carreira. Para o humorista, estes encontros funcionam como um laboratório criativo, permitindo experimentar novas ideias, perceber a reacção do público e recolher elementos que posteriormente poderão integrar produções de maior dimensão.
Foi dessa dinâmica que nasceram espectáculos como “Quase Homem”, considerado por Babo Maduro o momento mais importante da sua trajectória por ter sido o primeiro espectáculo realizado integralmente a solo. O projecto antecedeu “Homem de Verdade” e simbolizou, segundo o artista, uma nova fase da sua maturidade pessoal e profissional.
Actualmente prepara uma nova produção de grande dimensão, que continuará a explorar temas sociais e assuntos da actualidade nacional, mantendo a linha de humor baseada na realidade moçambicana.
ENTRE A IMPROVISAÇÃO E OS IMPREVISTOS
Apesar do trabalho de escrita, Babo revela que cerca de 20 por cento do espectáculo depende da improvisação, recurso utilizado para responder às reacções da plateia e às circunstâncias do momento.
NEM SEMPRE, PORÉM, OS IMPREVISTOS JOGAM A FAVOR DO HUMORISTA.
Uma das situações mais marcantes ocorreu durante uma apresentação num restaurante, onde o espectáculo coincidiu com uma festa de aniversário. Sempre que chegavam novos convidados, o espaço interrompia o ambiente do stand-up para cantar os parabéns, obrigando-nos a disputar a atenção do público com sucessivas celebrações.
HUMOR CADA VEZ MAIS MOÇAMBICANO
Nos últimos anos, Babo Maduro reconhece ter alterado significativamente a forma como escreve as suas piadas. Se anteriormente evitava referências directas à realidade política e social do país, hoje aposta em personagens e figuras conhecidas do contexto moçambicano.
A mudança surgiu depois de um episódio curioso. Durante uma publicação nas redes sociais, um utilizador comentou: “Até que esse angolano é bom.” A observação levou o humorista a perceber que parte do público ainda não identificava o seu trabalho como profundamente ligado à realidade nacional.
Desde então, passou a incorporar com maior frequência referências específicas à sociedade moçambicana, procurando construir uma identidade artística facilmente reconhecível pelo público local.
UM HUMOR QUE TAMBÉM MUDOU
Na sua leitura, o humor moçambicano atravessa uma fase de transformação impulsionada pelas redes sociais e pelas novas plataformas digitais. Recorda que, há alguns anos, humoristas como Mito Munguambe abordavam temas considerados sensíveis sem provocar grandes debates públicos e com particular enfase nas redes sociais. Actualmente, considera existir maior escrutínio sobre os limites do humor, fenómeno que obriga os comediantes a repensarem constantemente os seus conteúdos. Ao mesmo tempo, acredita que a digitalização ampliou a projecção dos humoristas, permitindo alcançar públicos muito além das salas de espectáculo.
A VOZ TREINADA PELA RÁDIO
Outra etapa importante da sua formação profissional foi registada durante a sua passagem pela rádio. Segundo explica, a experiência radiofónica contribuiu significativamente para aperfeiçoar o controlo vocal, a respiração e a colocação da voz, competências que hoje considera fundamentais para sustentar um espectáculo de stand-up.
OS DESAFIOS DA PROFISSÃO
Apesar do crescimento do género em Moçambique, Babo Maduro entende que ainda existem obstáculos estruturais para quem pretende viver exclusivamente da comédia.
O principal desafio continua a ser a reduzida oferta de espaços para apresentações regulares, situação que limita a frequência dos espectáculos de Stand Up Comedy e dificulta a profissionalização de novos humoristas. Ainda assim, acredita que o futuro passa pela democratização do stand-up comedy, levando este formato a diferentes cidades e públicos do país.
“SONHO COM UM SHOW COM CINCO MIL PESSOAS”
Quando questionado sobre a maior meta da sua carreira, a resposta surgiu sem hesitação. Babo Maduro sonha realizar um espectáculo no Pavilhão do Desportivo, reunindo cerca de cinco mil espectadores.
Mais do que um objectivo pessoal, considera que esse momento poderá representar um marco para a afirmação do stand-up comedy em Moçambique e demonstrar que o humor nacional tem capacidade para mobilizar grandes audiências.
Entre as suas principais referências identifica Celso Fernando, Wantsongo e Mito Munguambe. No entanto, espera que, nos próximos anos, o crescimento do sector permita que mulheres humoristas passem também a integrar esse grupo de artistas que mais o inspiram.
Enquanto esse futuro não chega, Babo Maduro continua fiel ao princípio que orienta a sua carreira: observar a sociedade, transformar a realidade em humor e provar, espectáculo após espectáculo, que o palco continua a ser o lugar onde verdadeiramente existe.
Por: Gil Gune